Em 2004, o hoje psicólogo Fernando Braga lançou o livro
Homens Invisíveis- Relatos de uma humilhação social. Braga trabalhou por anos como gari na USP a fim de escrever sua tese de mestrado. O texto acabou virando livro e também documentário.
A obra conta a história do relacionamento dele com pessoas que exercem não apenas uma profissão "subalterna e não-qualificada", mas uma profissão desumana e mal-paga, que condena seres humanos a trabalhos degradantes, a tarefas que ferem não só o corpo, mas também – e principalmente – a alma.
"O corpo é surrado, sugado, machucado, infestado: a única empresa do trabalhador vai falindo. Sua saúde entra em colapso, com complicações de todas as naturezas e magnitudes. (...) Um dia, a saúde falece, definitiva e precocemente. E a alma – humilhada, comprimida, aviltada, destroçada – permanece".
Este e outros trechos igualmente contundentes nos mostram como é cruel o dia-a-dia e o destino de quem entra em contato com o mundo através do contato direto com o lixo e o material desprezado pelo mundo, por todos nós. Como é ingrato ser gari. Varredor de rua. Lixeiro. Subalterno. Não-qualificado. Ocupante do cargo mais raso, denominado "ajudante de serviços gerais", gari não é consultado sobre qual trabalho deve ser feito antes.
Não escolhe suas ferramentas e delas não pode reclamar, mesmo que sejam inadequadas, perigosas, desgastadas – enfim, mesmo que nem ao menos pareçam projetadas para o corpo humano.
O trabalho – sujo, insalubre, braçal, repetitivo, humilhante – é exercido sob hierarquia severa e autoritária. Pior: por tudo isso, quem é gari deixa de ser visto como pessoa e passa a ser visto – quando visto – apenas como função.
Geralmente, como provam diversos episódios do livro, gari passa despercebido. Não é notado ou cumprimentado. Vira homem invisível.
Serviço:Homens Invisíveis; Ed. Globo; 254 páginas; R$32,00(texto original: Fernando Jasper- Portal Paraná)