12.6.07

Meus estudos

Tio Lukas foi um tremendo matador de aulas entre os 13 e 20 anos. Por três vezes repeti por falta no Gastão Vidigal e depois no Colégio Paraná. Em 1973 comecei a fazer Desenho Arquitetônico no Gastão mas não tínhamos dinheiro pra comprar os materiais (caneta nanquim e outros materiais). Na verdade minha família não tinha dinheiro pra comprar o que comer. Daí eu fui ficando com vergonha de frequentar as aulas, o único sem o material de estudo, o professor perguntando dele, e aquelas meninas tão bonitas, todo o mundo desenhando e eu enrolando com meu lápis, fazendo esboços.
Daí que eu saia de casa à uma da tarde e passava no consultório de um dentista (Shudo Yassunaga) que ficava na avenida São Paulo. Entrava e, como, não tinha secretária na frente, eu emborcarva um monte de revistas, colocava na bolsa e ia pro Parque do Ingá. Aí eu me sentava em baixo de uma árvore e lia tudo que podia. Lá por 4 e meia eu escrevia umas baboseiras de matemática numa página do caderno porque minha mãe às vezes pegava pra ver como eu estava indo com as matérias (Pobre dona Zica). No caminho eu jogava as revistas fora pra não dar bandeira.
Aí eu reprovei depois de quatro meses sem ir ao colégio. E quando eu não passava no consultório do dentista eu ia na biblioteca que ficava na esquina da Duque com a 15 de Novembro. Ficava das 2 até 5 horas lendo.
No ano seguinte me matriculei em curso maluco lá que tinha 4 matérias que envolvia matemática. Fui pro bosque novamente. Lia a não poder mais. E biblioteca. Gozado que nunca ninguém da biblio me questionou sobre minha presença quase diária no recinto. E eu lia, e lia, e lia.Sério que não me arrependo nem um pouco de ter feito isso. Onde eu iria usar tabela periódica, expressão de segundo grau e saber o valor de X ?
Vem pra mim Victor Hugo, Júlio Verne, Ferenc Molnar e Josué de Castro. Olá, como vai, meu grande amigo Émile Zol?. Como passou de ontem meu caro Cervantes, aí nessa estante fria e cheia de mofo. Vamos conversar mais um pouco hoje, Dumas. Eu tô louco pra você terminar essa conversa logo porque o Kafka tá me esperando pra daqui alguns dias. Ah, Metamorfose, ah, O Processo...me aguardem aí enquanto o povo tá lá no Gastão aprendendo o que é raiz quadrada. Eu vou pegar vocês, fiquem tranquilos e me aguardem aí, nesses cantinhos escuros e sebosos. Ah, como eu amo vocês.
E assim foi mais um ano letivo pro espaço, pra cucuias, pra casa do c...
1980 (ano que estudei com Zé Rigon) foi mais um ano perdido em matéria de aprendizagem. Toca eu indo pra biblioteca porque no consultório do dentista eu já tinha medo de passar. Minha mana pagava meus estudo no Colégio Paraná nesse período. Quando ficaram sabendo que eu havia reprovado novamente por faltas foi a maior comoção no barraco. Levei safanão da irmã.
A vergonha foi tanta que eu quase nem queria partilhar da comida que a mãe fazia. Tinha dia que eu não almoçava ou jantava pois me sentia um parasita e uma decepção pra família.
Mas, no final, tudo terminou bem. Ou será que não?

3 comentários:

Ely disse...

Sua história é bonita mesmo e prova que o insucesso escolar não determina o fracasso profissional.
Ou seja, a falta de escolaridade não empurra, obrigatoriamente, o indivíduo para a marginalidade, nem mesmo caracteriza falta de inteligência. Aliás, pelo contrário, "seus rabiscos" demonstram uma inteligência, uma sacação e perspicácia fora do comum.
Valeu a babação ? Brincadeirinha ! Há muito tenho esse conceito.

Jose Telles disse...

concordo em parte com o que disse o ely, mas isso não pode chegar aos olhos de nossas crianças sem nenhum reparo, pois não é uma regra a ser seguida por elas. Vivemos num mundo predominantemente de autodidatas e isso explica, em parte, os grandes problemas que a humanidade enfrenta hodiernamente. Se o Lukas fosse "normal", tendo frequentado regularmente os bancos escolares, não o teríamos tal qual como o conhecemos, pois seria mais um acadêmico funcional, laborando em área diferente de sua formação acadêmica. A sua história, repito, não deve servir de modelo às nossas crianças, as quais deve ter como farol a escola, pois fora dela não haverá solução para essa imensa massa que necessitam do conhecimento para compreender e preservar o planeta ameaçado por incompreensões,pelo obscurantismo e pela ignorância dos povos e de seus governantes.

André disse...

Com certeza o que você aprendeu na enquanto matava aula foi muito mais proveitoso do que o conteúdo que receberia na sala de aula. Mas você foi uma exceção. A maioria das crianças e adolescentes que matam aula não procuram livros, elas vão atrás de malandragem.