24.6.07

Futebol ariano

Por acaso passei um pano na abertura do jogo Atlético Paranaense e Palmeiras. Estádio lotado e aquela festa para receber o time paulista. Devia ter umas 30 a 40 crianças todas uniformizadas no gramado. O Palmeiras entrou em campo, rojões, fotos, a garotada abraçando os jogadores e por aí vai.
Pergunta pra mim, ó noqueiro: "Tio Lukas... entre esses meninos e meninas que foram participar da recepção do Palmeiras tinha algum negrinho ou negrinha?".
Aí eu respondo: nananina. Tinha lourinho com cabelo de corte "surfista", mas negro não tinha nenhum.

5 comentários:

Vóis disse...

Tio Lukas foi maldosizinho agora. Estas crianças provavelmente são filhos de sócios da gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras, cuja sede social é no Parque Antartica mesmo. O Palmeiras é um clube de sócios predominantemente descentes de italianos, daí a predominância de caucasianos entre seus membros. Mas entrarei agora no site do Palmeiras e registrarei sua indignação.

jose telles disse...

Extrato do texto de Carlos Eduardo Carvalho, economista (Caros Amigos, ano IV, nº 41, agosto 2000, pág. 17), intitulado "Corinthians e o preconceito".

... É assim que o Corinthians aparece no imaginário das elites, orgulhosas do São Paulo, o clube pó-de-arroz do Morumbi que criaram na década de 1930 para não terem que torcer para times de pobres ou de imigrantes "carcamanos", um clube da elite, com seus senhoritos pó-de-arroz, mas com algum espaço também para os que se sentem felizes fazendo de conta que, torcendo para o clube da elite, ficam um pouco parecidos com a elite.


É assim que o Corinthians aparece no imaginário dos italianos enriquecidos, inconformados por terem de conviver com pretos, mestiços e pobres, os "brasileiros", por todos os lados nesta São Paulo babilônica, os mesmos italianos enriquecidos e preconceituosos que se afastaram do Corinthians para fundar em 1914 um clube só seu, o Palestra Itália, fechado a pretos e mulatos, fechado à gentinha desdentada e ignorante que até hoje procuram humilhar, o mesmo Palmeiras que resistiu até o início dos anos 1950 para deixar um negro jogar no seu time e até poucos anos atrás não permitia a entrada de negros ou não-brancos nas festas de sua sede, fossem ou não torcedores do clube. ...

jose telles disse...

Lá vai o texto na íntegra:

Circulou semanas atrás em São Paulo uma "brincadeirinha" sobre o comercial então veiculado na televisão pela Pepsi-cola, em que aparece um homem branco, alto e bem vestido, conduzindo o filho pela mão em um estádio de futebol, ambos tomando uma latinha de refrigerante enquanto torcem pelo clube patrocinado pela Pepsi, o Corinthians.

Seria mais uma entre tantas gozações que torcedores de futebol assacam regularmente uns contra os outros. É bem mais que isto, porém. Diz assim:


"A fábrica de refrigerantes Pesi-Cola está sendo processada por propaganda enganosa. Tudo devido aos erros e mentiras de seu mais novo comercial de TV.
1. O pai chega com o garotinho no estádio. Erro: desde quando corintiano sabe quem é seu pai?
2. O garotinho não estava usando gorro!
3. O garotinho não falou uma palavra errada sequer e nem falou "mano"!
4. O garotinho corintiano possuía a arcada dentária completa (que absurdo)!
5. O garotinho era branco!
6. O pai corintiano comprou o refrigerante, não roubou!
7. Refrigerante de corintiano é no máximo uma tubaína!"


O texto é chocante. O tom de "piada" permite que venham à tona, com toda a crueza, os preconceitos grosseiros que povoam o imaginário e o inconsciente de nossa sociedade. Só por isto mereceria uma reflexão atenta. O que quero discutir, porém, é o significado de tais baixarias continuarem sendo associadas ao Corinthians, como é de costume há décadas.


Quem olhar qualquer torcida de futebol em São Paulo dificilmente encontrará grandes diferenças étnicas, renda ou de escolaridade. As poucas pesquisas recentes sobre o perfil dos torcedores paulistanos confirmam que os percentuais de cada clube são quase os mesmos nas diferentes faixas de renda e instrução. Há muito mais corintianos do que palmeirenses e são-paulinos, em proporções semelhantes, nas favelas e na elite, nas universidades e entre os que mal conseguiram cursar o 1º grau.


Por que então todos estes epítecos ofensivos são associados aos corintianos, e nunca aos demais torcedores?


A resposta só pode estar nas representações que a sociedade paulista faz dos clubes de futebol, ou nas representações que faz de si mesma por meio dos clubes de futebol, por meio das quais se expressam os preconceitos , os rancores, a herança do passado, coisas que não se dizem abertamente nesta sociedade dissimulada e oblíqua.


É a única explicação para tanta gente repetir com prazer e "bom humor" grosserias de tais proporções, grosserias dirigidas de fato contra os pobres, contra os negros, contra os não-brancos. Como "não fica bem" atacá-los ou ridicularizá-los abertamente os corintianos ocupam nestas brincadeiras o lugar do imaginário de todos os pobres, de todos os negros, de todo os desclassificados.


De que são acusados nas frases "espirituosas" sobre o comercial da Pepsi?


De não saberem quem é seu pai (gentinha sem origem, sem berço!), de não serem brancos, de não terem dentes, de não saberem falar, de serem ladrões e, síntese de tudo, de serem pobres! Afinal, coitados, só podem mesmo comprar tubaína...


Por que o Corinthians ocupa este lugar?


O Corinthians nasceu pobre mesmo, em 1910, fundado por trabalhadores no Bom Retiro, aberto a todas as raças e a todas as cores, a todas as nacionalidades. Era só mais um clube de várzea na sua origem, mas logo quis furar o monopólio dos senhoritos, os filhos da velha elite e dos novos-ricos, os únicos que tinham direito de jogar o futebol oficial.


O Corinthians foi o primeiro clube da várzea a conseguir entrar na Liga Paulista de Futebol e a participar do seu campeonato, em 1914, quando foi campeão paulista primeira vez. Conseguiu entrar na liga disputando um torneio seletivo, em que derrotou alguns dos clubes mais fortes da elite paulistana. Num destes jogos, a imprensa registrou com surpresa que aqueles trabalhadores eram capazes de jogar de se comportar como pessoas educadas, como se fossem "parte da sociedade".


Quem era o Corinthians desta época?


O primeiro presidente se chamava Miguel Battaglia, o segundo Alexandre Magnani, nomes italianos inconfundíveis. Já na década de 1910, um negro se destacava na equipe alvinegra, Davi, um centro-médio talentoso. O primeiro grande ídolo do clube era filho de portugueses, o inesquecível Neco. Além dele, o time tricampeão paulista de 1924 tinha nomes como Rueda, Del Debbio, Ciasca, Peres e Tatu, este um típico cafuzo brasileiro, pele escura, cara mestiça.


Na foto do time de 1937 se destaca o negro Brandão, grande ídolo da época, ao lado do inconfundível Jaú, negro alto e forte, com seu gorro na cabeça prenunciando a moda dos pretos e pobres desta cidade de todas as cores.


O Corinthians atraía todos eles, brasileiros migrantes de toda parte, espanhóis e portugueses, árabes e judeus, japoneses e alemães, e boa parte dos italianos pobres.


Tantos anos depois, o velho alvinegro continua sendo a imagem dos mais pobres dos muitos pobres desta terra, em especial a imagem dos negros, dos não-brancos.


O clube criado por trabalhadores cresceu, deu certo. E nunca perdeu esta marca, como mostra a "brincadeira" sobre o comercial da Pepsi. Como conseguiu mantê-la? Esta é uma boa pergunta.


Os pobres e trabalhadores estão excluídos da direção do clube há muito tempo, São poucos os jogadores que de fato "amam a camisa" ou que vieram dos campinhos de terra do Parque São Jorge. Há muito tempo o clube é controlado e dirigido por novos-ricos, gente pouco escrupulosa, de moralidade duvidosa. Nada diferente do que ocorre nos outros clubes de futebol profissional e em outras organizações amplas neste país.


O clube ficou quase 23 anos sem ganhar nenhum título importante, do início de 1955 ao final de 1977. Apesar da enorme migração para São Paulo neste período, e da concorrência do grande Santos e da academia palmeirense, e ainda do São Paulo do início dos anos 1970, a torcida corintiana cresceu sempre e continuou muito maior que as demais. Em outros Estados brasileiros não foi assim.


De alguma forma, ou de várias formas, o Corinthians continuou atraindo o afeto e a paixão dos pobres desta terra,dos que já estavam aqui e dos que chegavam, vindos dos lugares mais diversos. Talvez os tenha atraído por continuar muito parecido com eles, Talvez eles tenham podido se reconhecer no alvinegro, sempre capaz de grandes feitos e de grandes vexames, heróico e vencedor em momentos difíceis, quando as forças parecem esgotadas, e capaz de tropeçar nas próprias pernas de despencar nos infernos quando a glória está já ao alcance da mão. "Corintiano, maloqueiro e sofredor, graças a Deus", repete a galera corintiana, orgulhosa de si mesma.


O velho Corinthians continua o mesmo no imaginário da nossa sociedade. É como um intruso, alguém diferente, alguém portador de um pecado de origem.


É assim que o Corinthians aparece no imaginário das elites, orgulhosas do São Paulo, o clube pó-de-arroz do Morumbi que criaram na década de 1930 para não terem que torcer para times de pobres ou de imigrantes "carcamanos", um clube da elite, com seus senhoritos pó-de-arroz, mas com algum espaço também para os que se sentem felizes fazendo de conta que, torcendo para o clube da elite, ficam um pouco parecidos com a elite.


É assim que o Corinthians aparece no imaginário dos italianos enriquecidos, inconformados por terem de conviver com pretos, mestiços e pobres, os "brasileiros", por todos os lados nesta São Paulo babilônica, os mesmos italianos enriquecidos e preconceituosos que se afastaram do Corinthians para fundar em 1914 um clube só seu, o Palestra Itália, fechado a pretos e mulatos, fechado à gentinha desdentada e ignorante que até hoje procuram humilhar, o mesmo Palmeiras que resistiu até o início dos anos 1950 para deixar um negro jogar no seu time e até poucos anos atrás não permitia a entrada de negros ou não-brancos nas festas de sua sede, fossem ou não torcedores do clube.


Pouca gente sabe de todas estas histórias, muitos juram que não são verdadeiras, outros dizem que são coisas do passado distante e que não têm mais nada a ver. Mas têm, sim. Os preconceitos e as grosserias estão aí para quem quiser ver, à flor da pele, reproduzidos e reiterados nas piadinhas e nas brincadeiras com que as sociedades reconstroem e reafirmam continuamente os valores que as mantêm e as constituem.


Gosto do meu Corinthians principalmente por isto: é o clube identificado com os pobres, é o clube em que se representa a malta dos deserdados, o sanatório geral, a gente sem berço, a gente sem classe, a gente do meu país.


Estou no lugar certo, no lugar em que me sinto bem, em que eu também me represento, como alguém que teve o privilégio de estudar, que teve boas condições na infância mas que não esquece a pilhagem secular que as elites desta terra praticaram contra os desdentados desta terra injusta, contra os pobres sempre acusados de ignorantes e ladrões por aqueles que sempre fizeram de tudo para privá-los de educação e de condições materiais para viverem com dignidade.


Estes mesmos trabalhadores e pobres de todas as cores e de todas as origens foram capazes de criar um clube de futebol que deu certo, que cresceu e que continua representando a imagem dos muitos milhões que sonharam, sorriram, gozaram e sofreram com ele nestes noventa anos.


Gosto muito do meu país mestiço, desdentado, cafuzo e confuso, preto e branco.


Gosto muito do meu alvinegro, do meu Corinthians!


Carlos Eduardo Carvalho é economista
(Caros Amigos, ano IV, nº 41, agosto 2000, pág. 17)

lukas disse...

Obrigado pelo texto, José Telles. Muito bom. É por isso que Caros Amigos dá de mil a zero nas Vejas da vida.

Anônimo disse...

Ô, lukas, o texto acima do Carlos Eduardo Carvalho, merece um tópico a parte. Por favor, poste-o.